A divisão sexual do trabalho e a base da família moderna


Filhos de pais solteiros. Solteiros sem filhos. Casais com filhos do segundo, terceiro casamento. Filhos convivendo com filhos de pais no segundo casamento. A transformação da estrutura familiar é um fenômeno forte e visível, mesmo para quem não viveu os velhos tempos do “casados até que a morte os separe”.

Nossos avós são modelos de uma realidade que vai se esfarelando conforme o tempo passa. Casamentos de longa duração são cada vez mais raros, da mesma forma que também é cada vez mais difícil ver um funcionário com 40 anos numa mesma empresa. Não creio que essa geração deve esperar por um emprego que o mantenha por tanto tempo num mesmo lugar. Não parece muita ingenuidade ficar esperando algo tão duradouro num contexto que muda tanto quanto o do emprego formal? Parece muito obvio pensar isso em termos de emprego e renda, mas será que não deveríamos fazer o mesmo em relação ao casamento? Casar é para sempre…ainda?

O que tem acontecido com o casamento de antigamente? Por que não conseguimos manter a mesma estrutura sólida do passado nos dias de hoje. Penso que seria muito simplista analisar a transitoriedade e a fragilização do casamento como um processo gerado pelo nosso mundo consumista e instantâneo. Dizer isso seria o mesmo que afirmar: vivemos num mundo imediatista, com microondas, celulares, com soluções “para ontem” que tem transformado nossa vida como um todo, incluindo as relações.

Concordo que vivemos num mundo que busca o “instantâneo”, mas creio que existe algo mais que explica esta fragilização do casamento nos dias de hoje. Na minha opinião, o que tem abalado o casamento não é uma cultura do “instantâneo”, mas uma mudança significativa na base dos relacionamentos como um todo. E isso envolve o que vou chamar de “divisão sexual do trabalho”. Como ilustra Giddens:

“Quando o casamento, para a maioria da população, efetivamente era para sempre, a congruência estrutural entre o amor romântico e a parceria sexual estava bem delineada. O resultado pode, com freqüência, ter sido anos de infelicidade, dada a conexão frágil entre o amor como uma fórmula para casamento e as exigências paras progredir posteriormente. Mas um casamento eficaz, ainda que não particularmente compensador, podia ser sustentado por uma divisão de trabalho entre os sexos, com o marido dominando o trabalho remunerado e a mulher, o trabalho doméstico. Podemos ver neste aspecto como o confinamento da sexualidade feminina ao casamento era importante como um símbolo da mulher “respeitável”. Isto ao mesmo tempo permitia aos homens conservar distância do reino florescente da intimidade e mantinha a situação do casamento como um objetivo primário das mulheres” (GIDDENS, Anthony. A transformação da intimidade. São Paulo, Unesp, 1993, p.58).

A divisão sexual do trabalho ocorre quando há uma separação dos papéis sociais baseados numa questão de gênero. Isso pode ser traduzido assim: “Trabalho de mulher é cuidar dos afazeres domésticos e dos filhos, e trabalho de homem é ganhar o pão de cada dia”. Ainda que eu não concorde com essa divisão sexual do trabalho, ela reinou durante muitos anos e serviu como estabilizadora dos papéis sociais que definiam o que era esperando de um homem e uma mulher num relacionamento. Mas, com o agravamento da instabilidade econômica, aceleração da vida moderna e enfraquecimento dos modelos do passado, mais e mais essa estrutura que garantia a solidez dos casamentos foi abrindo uma fenda. Não é preciso insistir muito que tal mudança também foi ansiada por uma grande parcela da sociedade, pelo menos no que toca às mulheres: pensando nas mulheres, a vida moderna se tornou um peso muito grande, e se livrar dos antigos modelos tradicionais foi não só uma necessidade como também um alívio. A vida na modernidade jogou nos ombros das mulheres um peso muito grande, uma vez que, com o agravamento da condição moderna, as mulheres tiveram que arcar com a necessidade de trabalharem também sem, contudo, deixarem de cumprir o que seria “trabalho de mulher”.

 

Essa mudança na estrutura familiar é benéfica? Bem, benéfica ou não, ela foi necessária a meu ver -o peso social sobre os ombros das  mulheres estava insuportável. Não quero com isso atribuir a instabilidade dos casamentos às mulheres. A perda de estabilidade dos casamentos é uma responsabilidade compartilhada por todos, homens e mulheres. O que não precisamos mais esperar é que as mulheres continuem em um relacionamento em que elas se sintam usadas e oneradas. Da mesma maneira como não conseguiríamos imaginar passarmos 40 anos em um emprego que não nos sentíssemos bem, sendo cobrados de coisas que acreditamos não ser nossa responsabilidade ou mais pesados do que podemos suportar. A divisão sexual do trabalho, nos dias de hoje, deve se dar sobre uma nova base. Toda vez que forçarmos homens e mulheres dentro de moldes que não lhes cabem, o resultado, geralmente, vai ser uma fenda por onde escapa a estabilidade do relacionamento.

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